No livro “O mundo em que vivi” de Ilse Losa podemos encontrar vários exemplos de desigualdade.
Aqui vou falar apenas do primeiro capítulo.
Logo nas primeiras páginas encontramos sinais de desigualdade. Por exemplo, quando a autora, na página 8, nos dá a seguinte discrição “Por isso eu, apesar de tão pequena ainda, tinha de andar sempre de meias pretas. Isto arreliava-me porque as crianças com quem convivia não usavam meias pretas e queria ser igual a elas” está a demonstrar-nos as diferenças sociais existentes entre Rose e as amigas. Rose tinha de usar sempre meias pretas pois eram mais “económicas”, ou seja, não se sujavam tanto como as brancas e, estando a família de Rose numa fase economicamente difícil já que o avô não podia trabalhar por motivos de saúde, não se gastavam tanto nem tinham que ser lavadas tantas vezes. Este é um bom exemplo da desigualdade existente entre as classes sociais.
Mais tarde, na página 35, podemos encontrar um exemplo bem claro de discriminação social devido à religião. Quando a autora escreve “Houve um tempo em que não era permitido aos judeus viverem e trabalharem como lhes apetecesse ou lhes desse prazer. Forçados ao isolamento em vielas escuras, só se podiam dedicar a determinados negócios” está a mostrar-nos a discriminação social de que os judeus eram alvo apenas por terem uma religião diferente. Eram tratados como se fossem menos dignos ou menos capazes apenas por não pertencerem à religião católica.
Na página 38, encontramos um bom exemplo da desigualdade entre os sexos, entre os homens e as mulheres. “O avô Markus sentava-se em baixo, na secção dos homens. A avó Ester e eu subíamos a escada para a galeria das mulheres. Perguntei certa vez à avó por que é que os homens ficavam separados das mulheres e por que é que as mulheres não intervinham nas cerimónias mais magníficas.” Aqui a autora mostra-nos a desigualdade existente entre os sexos naquela altura. Certas cerimónias eram exclusivas dos homens e as mulheres não podiam ser parte activa nelas. Apesar de as mulheres estarem a ganhar importância e estatuto na sociedade ainda eram discriminadas em certas situações apenas por serem mulheres. Apesar de a sociedade estar a evoluir no sentido da igualdade entre os sexos, este é um processo lento que, ainda hoje em dia, não está completo.
O último caso de desigualdade de que vou falar está na página 45. Trata-se da discriminação das pessoas apenas pelo seu aspecto exterior. “Magricela, sempre de preto, de cabeça achatada, cabelo oleoso e olhos esbugalhados: foi assim que Stefanie Kohn se me gravou na memória.” A autora dá-nos a descrição de uma senhora a quem todos os meninos chamavam bruxa apenas por causa do seu aspecto. Não conhecendo a senhora pessoalmente julgavam apenas pelo que viam, apenas pelo aspecto exterior. Quando Rose visita a senhora em sua casa, vê que afinal é uma pessoa como todas as outras apesar do seu aspecto e começa a duvidar se a ideia que tinha formado era, de facto, verdadeira. No entanto quando comenta esta impressão com a sua amiga, esta não se demonstra muito interessada. Este tipo de discriminação está presente até aos dias de hoje. Continuamos a julgar as pessoas apenas pelo que vemos e muitas vezes a exclui-las socialmente por não se enquadrarem no estereótipo que a sociedade criou do que é o “normal” e muitas vezes quando nos provam que existe mais além do aspecto exterior, que no fundo são pessoas iguais a nós, simplesmente não queremos ver por estarmos agarrados à imagem do que deveria ser. Continuamos, apesar de tanto tempo ter passado e tantos esforços serem feitos para combater as desigualdades, a guiar-nos pelos estereótipos que a sociedade criou.
Este é um livro que, lido com espírito crítico, nos faz pensar em muitas coisas. Fala-nos além das desigualdades, da guerra, do sofrimento, da família.
Mostra-nos, como o título diz, o mundo em que Ilse Losa viveu a sua infância. Dá-nos a conhecer um mundo que, para nós, está longe no tempo e no espaço, mas que poderia ter sido o nosso. Bastava termos nascido naquele tempo e naquela cidade.
Faz-nos acordar para uma realidade que com contornos diferentes vemos todos os dias. As guerras continuam a existir, as desigualdades sociais, apesar de mais subtis, continuam a ser as mesmas e as famílias apesar de tanto terem mudado, continuam a passar por alegrias, tristezas, conquistas e dificuldades tal como as de antigamente.
É um livro único que nos faz reflectir e que deve ser desfrutado em pleno.
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